terça-feira, 1 de agosto de 2017

Sísifo e sua pedra: reflexões sobre a existência




Condenado pelos deuses a carregar uma enorme pedra sem qualquer descanso até o cume de uma montanha, de onde a pedra caía novamente, em consequência de seu peso, Sísifo é o nosso herói. Seu castigo não poderia ser pior, pois deveria eternamente repetir essa tarefa sem jamais parar. Sísifo é aquele que carrega eternamente o seu fardo e repete sem cessar o seu destino. E por que estamos falando de Sísifo aqui? Em quê Sísifo se assemelha a nós? Ele se assemelha porque ele é nós e nós somos ele. A única diferente é que Sísifo está consciente do absurdo de sua condição.
Em 1942, Albert Camus escreveu O mito de Sísifo, um ensaio que pretende refletir sobre aquilo que é o mais profundo e próprio sentido do homem: a existência. Em que consiste a existência do homem nesse mundo? E por que seria essa existência absurda?

Os homens são como Sísifo. Repetem todos os dias os mesmos afazeres, as mesmas coisas, a mesma rotina. E sequer tomam consciência disso. Se é todo dia filho dos mesmos pais, pai ou mãe do mesmo filho, acorda e dorme, anda, senta, corre, ama e odeia as mesmas coisas... isso é ser humano! E a repetição rege e ordena o mundo dos homens. Mas o que faz Sísifo no momento em que do alto do cume vê mais uma vez a sua pedra rolar abaixo? O que pensa Sísifo ao descer a montanha consciente que deve novamente levantar mais uma vez sua pedra? É nesse momento que Sísifo é livre e consciente está do absurdo que é viver.
Não há sentido na vida, não há sentido nos afazeres dos homens. E nem por isso devemos deixar de viver. Viver é esse espetáculo que assistimos em primeira pessoa, em que usufruímos o fardo da existência pessoalmente. E esse fardo não podemos não carregar, pois ele é nosso e sobre ele temos que refletir e viver. O absurdo só faz sentido na medida em que o homem o mantém, de modo a nunca se conformar e contra ele se revoltar constantemente. Quem alguma vez conheceu o absurdo, a ele ficará para sempre desesperadamente ligado.
Há aqueles que vão nos dizer (ingenuamente) que “Sísifo poderia deixar de carregar a pedra e fugir ao seu destino eterno”. Mas isso é um argumento tolo, pois a pedra de Sísifo nada mais é do que a sua própria existência. Sísifo não pode abandonar sua existência, mas deve carregá-la eternamente sem esperança. O peso que está sobre Sísifo é o fato de existir, e a existência é algo pessoal e intransferível, que nos leva a outra inevitável questão: o que é, para mim, existir? Eis a pergunta de Sísifo, eis a questão que habita o coração de todos os homens. A diferença é que Sísifo é consciente disso. Consciente do peso que há em existir. No intervalo, entre a subida e a descida é que Sísifo tem manifesta a sua liberdade por mais paradoxal que possa parecer. Pois é na descida que Sísifo reflete e põe diante de si o plano da sua existência. Eis o homem absurdo!

O homem é este ser perdido diante da própria existência, sem nada que o possa apontar um transcendente possível, além de uma crença infundada nos fatos. Sua existência consiste na imanência apenas. O sentimento absurdo é aquele que se levanta quando o mundo para de nos dar respostas para as nossas questões. O que fazer com o tempo que nos foi dado? Como devemos viver? O que é existir para mim? O absurdo surge com os próprios limites da razão para responder essas questões tão próprias da existência.

* Esse ensaio foi publicado primeiramente na "Gazeta" do Amapá no dia 30/07/17.

2 comentários:

Edmundo Marcelo disse...

Todos os dias me pergunto o que farei para tornar a minha "existência" o motivo de não ter mais nada há não ser o último suspiro quando da minha transição.. já joguei é jogo muitas pedras morro abaixo, pq não valeu a pena aquela subida!!!

Klinsmann Dolzanes disse...

Finalmente eu encontro um questionamento que não consigo expressar para as pessoas ao meu redor. Todos estão tão mergulhados nos seus afazeres e não percebem que vivemos numa prisão opressora, esta chamo de "incoerência do existir", porque não importa o que façamos, pensemos, filosofemos ou idealizemos, não há um propósito que satisfaça, mesmo no divino, a ação de existir. Pois, por exemplo, em teoria: Eu trabalho e avanço meu intelecto nessa dimensão, mas eu deixo essa dimensão para outra e continuo num ciclo eterno de trabalho e avanço em intelecto até o utópico? Para quê? Ou, caso contrário, não há outra dimensão e tudo é apenas uma ilusão, por que estou obrigado a estar consciente numa cela (existência) e vivenciar as maldades e benevolências do mundo para um resultado final vazio?

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